Sobre mim e outras coisas, irreais, ou nem por isso...

04
Out 14

Costuma dizer-se: quem dá o que tem, a mais não é obrigado. Ontem foi a entrega de diplomas da escola, genericamente falando, de mérito para quem alcançou determinadas notas, de louvor por comportamentos, cidadania e atitudes. Parece-me bem distinguir os que, de um modo ou outro, fizeram a diferença, durante o ano lectivo, por boas razões, pelo esforço, empenho, resultados e atitudes correctas e positivas. E lá fomos, todos. Saí de casa orgulhosa pela filha, não por ser brilhante, nem propriamente muito interessada nos estudos ou curiosa de saber, mas por saber que por muitas horas de resignação, trabalho e estudo lhe permitiram obter muito bons resultados. Mesmo não sendo, e de longe, o que mais lhe apetecia fazer, fez o que devia. Chegámos cedo, aliás, fomos os primeiros, e dentro dos parcos recursos, a escola estava arranjada a preceito, e a noite de outono estava agradável. Tudo me pareceu muito bem! Pouco me interessa se o som era mau, se o ecrã era uma folha de papel, se as cadeiras eram de plástico. A atitude estava lá, e para mim, isso chegava. A coisa começou a descambar com a chegada da garotada e famílias. A mais velha foi com as amigas. Comentou, desdenhosamente, que eu preferia que ela tivesse um diploma de louvor que de mérito. As cabecinhas "louras" das amigas não conseguiram perceber que a mãe da amiga teria ainda mais orgulho na filha se ela fosse, antes de boa aluna, uma boa menina. Ahhh, ela, perto dos outros, já é uma boa menina...( infelizmente, não me parece que isso me chegue, o critério da comparação...) Depois, as pessoas começaram a chegar e a sentar-se, no meio da balbúrdia, da barulheira! Ignorando o sinal de bancos reservados aos alunos, por grau de ensino, e os avisos de professores e funcionários. Notei a falta de professores, os mesmos que propuseram os miúdos para o quadro de honra. Não gostei. Notei pais, avós, convidados a andarem para trás e para a frente, a falar ao telefone, a mudarem de sítio, a desdenharem, a sentirem-se enfadados e com pressa de partirem antes ainda de terem chegado. A cerimónia começou, sem pompa nem circunstância. No ecrã, projectavam os homenageados e eram chamados um a um, sendo-lhes oferecido um reconhecimento simbólico. Mais uma vez, para mim, pareceria muito suficiente. Mas ao olhar para o ecrã, e fazendo uso de mais de sete anos envolvida na dinâmica escolar, quer na associação de pais, conselho de escola ou caf, apercebi-me da disparidade de critérios e de efectividade das distinções. Escolas onde todos são excelsios, outras onde nem por isso...meninos com um "cadastro" maior que eles a receberem diplomas de louvor...e se o diploma de mérito tem como base notas, mais difíceis de contestar, o de louvor deixou-me algumas dúvidas. Mas dou de barato! Pouco a pouco, fui assistindo à debandada geral, sem respeito pelos que faltava homenagear. A conversa, o falatório, a pouca vontade, inclusivamente das minhas filhas, de ficarem até ao fim. Todos terão tido os seus motivos, nem que fossem fome ou frio, àquela hora da noite. Mas porra! Só lá estavam praticamente os alunos distinguidos e familiares respectivos. Devíamos representar do melhor que a comunidade local tem para apresentar e, assim de repente, pareceu-me que a comunidade tinha mesmo muito pouco para apresentar. No final, éramos meia dúzia de gatos pingados os que assistimos à brilhante actuação final de uma das alunas, que contou lindamente, mesmo no fim da cerimónia. Para os diplomas de melhores alunos de exames nacionais, houve crianças que nem foram buscar o seu, pois já tinham saído, os pais nem sequer esperaram para ver as distinções dos seus filhos, meninos que tinham estado lá no início. Senti vergonha alheia, mas fui aplaudindo por todos os que ficaram e que iam sendo chamados. Tinha tudo para ser uma noite bonita. As miúdas, mal comportadas como os demais, perderam o prêmio extra que esperavam, um jantar no seu fastfood favorito, e seguimos para casa, para grande infelicidade delas, no meio de sermões. Todo o orgulho com que saí de casa se desvaneceu ao longo da noite. A desilusão instalou-se em mim. Pelo que vi. Por percebeu que ainda não consegui que as minhas filhas sejam ou desejem ser mais. Não mais do que os outros. Apenas mais, melhores, no comportamento, na atitude, no interesse, no querer saber. Por perceber que nisso, com certeza sou eu que estou a falhar!

publicado por na primeira pessoa do singular às 17:52

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