Há anos que ando a adiar a vida.
Devia ter uns 14 anos quando fiz testes psicotécnicos, e vinte e tal anos de distância, começo a ter a sensação que foi como se me tivessem lido a sina.
E que eu tentei desafiar essa sina, ou que fiz qualquer coisa errada pelo meio. Isto, digo eu, que não acredito em sinas, mas que acredito em "efeito borboleta". Suponho que sim, sou mais uma prova da teoria do caos.
Aos 14 anos nem namorado tinha, mas por me ter sido perguntado, estruturei a minha via: curso universitário, casar aos 25, 3 filhos...
E quando aquilo disse que eu podia ir para tudo, menos silvicultura, pescas e música, eu devia ter achado estranho.
Fiz o curso na área de engenharia, como sugerido, e fiquei feliz. Não fui brilhante, mas fui bem sucedida, como acredito que teria sido num curso de letras, de história, ou num de medicina. Arranjei facilmente emprego, onde fui bem sucedida durante vários anos.
Casei-me aos 25, e não me arrependo, com o primeiro namorado que tive.
Não tive os 3 filhos.
A "leitura da sina" não me avisou de ovários poliquistícos, de insulinoresistência ou de infertilidade. Nem que eu iria engordar para o dobro do peso que tinha nessa altura. E que isso tudo junto ia condicionar os filhos, as injecções, comprimidos e milhares de euros para a primeira, repetição dos comprimidos para a segunda, e muitos meses de espera. Não previu que escolhendo a engenharia civil, a minha vida ia mudar, os horários, a velocidade, a alimentação, a falta de exercício, o cansaço, se iriam conjugar com os ovários e com o pâncreas para dar cabo da vida estruturada por perguntas, cruzes e bolinhas.
Comecei a engordar há quase 14 anos. Quando comecei a trabalhar. Dupliquei.
Dietas iô- iô, fizeram com que eu deixasse de ser um I e passásse a O. Com mais frustração. Mais confort-food. Mais frustação. Mais confort-food...mais meses à espera do terceiro filho. Mais frustação. Mais confort-food. Mais gorda. Mais frustada. Mais dieta. Mais frustada.Mais confort-food. Mais gorda. Mais meses. Mais Frustrada. Mais confort-food. Mais gorda.
Estou dentro desta espiral há anos.
Todos os dias penso, ao deitar, vai ser amanhã. E quando começa o dia, e acordo cansada, moida, dorida, penso: logo. E quando entretanto chega o logo, e chego cansada, moida, dorida, volto a pensar: amanhã.
Vou emagrecer e ter o meu bebé, penso. Depois, nem emagreço, nem tenho o bebé. Engordo.
Vou emagrecer, por mim e pelo R, ele merece, tem sido o melhor dos maridos, e merece uma mulher melhor. E vai ser ainda melhor, quando estivermos juntos. Porque seu eu estiver saudável, serei melhor. Depois, não emagreço. Engordo.
Vou emagrecer, pelas meninas, porque precisam de um exemplo de mãe, e eu quer ser mais activa, com elas, para que , mesmo que esteja nos genes, mesmo que esteja na sina, elas não fiquem como eu. E porque precisam de mãe.Depois não emagreço. Engordo.
Estas são as melhores razões e motivações que eu poderia ter, e não me estou a deixar motivar.
E como se isto não bastasse, cada vez que marco uma consulta, inicio tratamentos, todos os médicos e especialistas olham para mim como se eu fosse maluca por querem mais um filho.E fica sempre a ideia, que já meti na cabeça, já que sou doida e quero o filho, primeiro devia ter o filho, e só depois submeter-me aos tratamentos mais radicais.
E por quere tanto esse filho, vivo a vida em metades de mês. Não tomo medicamentos que me podiam aliviar as dores, ou tirar a fome, ou esquecer a frustração, e espero pelo filho, que não chega. E no mês seguinte, volto a esperar, e no outro, e no outro...e não emagreço, nem engravido, nem filho melhor.
E desta vez, já lá vão 3 anos. E eu aqui, a continuar a adiar.
