Acho que o meu coração está a empedernir.
Há sei lá quantos anos, com Chernobil, lembro-me da familia se ter mobilizado para receber alguém, que nunca chegou..
Há 11anos, no meu primeiro emprego, indignei-me do modo como estavam a ser recebidos a primeira leva de ucranianos que chegavam para as obras... e a engenheirita, de mangueira na mão, lavou os espaços a que chamavam de quartos, mandou, ralhos, barafustou, mas conseguiu condições para alquela meia duzia de rapazes ,que chegava sem saber uma única palavra de português. Recortei panfletos, desenhei, escrevi e fiz um dicionário ilustrado de primeira necessidade, com escrita e fonética, de números, horas, ferramentas, alimentos. Levei um frigoríco de casa. Fiz o que pude e o que não pude.Dos funcionários, ganhei respeito e admiração. Da patroa, um olhar de admiração. Do patrão, um sermão deste mundo e do outro.
De tudo o que não era bom, reconheço hoje, que já nessa altura, ele lhes estava a oferecer condições muito acima do que, desde então, tenho visto , até aos dias de hoje.
Noutro emprego, revoltei-me contra as condições sub-humanas a que os funcionários eram sujeitos, levantei uma Não -Conformidade à administração da empresa, no sistema da Qualidade, e grávida, despedi-me.
Emocionava-me com as desgraças do mundo.
Um dia, já mãe, dei quase metade do ordenado acabado de receber a uma mulher, que , à chuva, pedia dinheiro com um bando de garotos a chorar atrás. E sei que fui enganada.
Ultimamente, custa -me ver todas as desgraças, os sismos, os tsunamis, as guerras, mas é como se o coração se tivesse fechado. Vejo a mãe e a sogra a choramingarem à frente de televisão, e custa-me a entender.
Quando o avô Q morreu, não me apercebi. Tinha 3 ou 4 anos. Quando foi da avó M, em vésperas de exames para a universidade, deprimi. Depois, fechei o coração. O avô J, emprestado, a avó T, a Bisa M, a L, outros, não tiveram lágrimas. E não quer dizer que lamente ou me custe menos. Defendi-me.
Agora, com o sismo no Taiti, limitei-me a procurar as contas da Cruz Vermelha e da AMI, e depositei uma soma, logo pela manhã, nas mãos daqueles que farão a diferença, mais dos que as lágrimas que eu possa derramar.
Se calhar é só mais uma desclpa minha. Ou se calhar, sou eu a ganhar a fibra que é necessário, para um dia, também eu fazer a diferença
