Sobre mim e outras coisas, irreais, ou nem por isso...

26
Mai 15

Às vezes, a vida é estúpida como o caraças.

Às vezes somos nós. Porque mesmo sabendo que não nos devemos deitar com problemas por resolver na almofada do lado, fazêmo-lo. 

E um dia tudo estoira na nossa cara.

 

O crítico de serviço não tem tacto. Às vezes parece-me que espera por uma falha para poder criticar, ou para poder mandar pratos com força para dentro do lavalouça, ou largar os talheres com força na bancada. Para que a sua irritação se ouça. Porque o garfo tem um bocadinho de comida agarrado, porque a bancada tem migalhas, porque limpei/lavei/passei (ou não) mal qualquer coisa, porque não varri ou aspirei, porque pareço indiferente a pó que se acumula nos cantos ou móveis, porque adormeci no sofá, exausta, porque não tenho ordenado certo, porque não ter ordenado certo cortou-nos as asas, porque a sopa está aguada, porque não está saborosa, porque não fiz sopa, porque fiz jantar, porque não fiz jantar, porque comi, porque lhe fiz comer, porque estou gorda, porque o faço engordar, porque cheguei tarde, porque cheguei mais tarde, porque me esqueci, porque não o lembrei, porque lhe doi o braço...porque as filhas não treinam tanto quanto seria desejável, porquese deitam tarde, porque se demoram a despachar...

 

Tudo é bom motivo para resmungar, e resmungar sem modos. Ou andar a resmungar baixinho, como se mais ninguém ouvisse, que é a pior coisa. Ou ignorando-me quando falo. Ou pondo em mim coisas que não lhe disse, amuando como o puto mais birrento.

 

Hoje estamos num dia destes, ontem também estávamos. Às vezes estamos. São dias que me matam por asfixia. E depois passo-me e digo com todas as letras o que andava a poupar.

Que às vezes também deixa louça mal lavada, e migalhas  na bancada, e não limpa ou lava tão bem quanto acha, e que não me lembro de ter assinado um contrato que tenho de ser eu a varrer ou aspirar quando alguma coisa não está bem. E que se ele se sente incomodado, pode ser ele a fazê-lo. E que se acha que estando eu adormecida ele está a ser obrigado a arrumar a cozinha, que não arrume, que de certeza que não é por isso que a casa vai abaixo. E que se está gordo, bem, eu só lhe faço o jantar! o pequeno almoço é ele que az, os lanches são como ele pede...e se ele sai tarde, e se eu saio tarde, e se com compras, actividades das filhas, reuniões, chegamos tarde, pois bem, os dias não chegam para tudo e há que haver prioridades. E se não há orçamento para empregada, e se quase não estamos em casa, parece-me consequente que existam coisas que fiquem por fazer. E que durante anos eu tive um ordenado maior, e nunca foi problema. E que um dia desisti de uma carreira que me podia trazer bons ordenados, para ter tempo para os nossos filhos, para os pais dele, para os meus. Para que as filhas tenham todo o acompanhamento na escola e nas actividades.Para poder durante 24 sextas feiras num ano a mãe dele à terapia, para lhes fazer limpeza, fazer compras, levar às consultase exames médicos quando estiveram sem empregada, para continuar a apoiá-los agora que têm uma empregada que eu perdi tempos infinitos a recrutar. Perdendo o ordenado bom e certo que recebia. Tendo de lutar diariamente por uma empresa num sector em crise. Passando horas e horas sozinha, desanimada, assustada, quando não estou nas obras. 

 

Ou então,  não digo. Fico pela conversa do costume do tens que ter mais tacto a falar...e ele birrento e evasivo e eu a chorar por dentro, assustada, enraivecida, com vontade de lhe dizer tudo, e com tanto medo de o perder. E ele sabe.

 

E então choro e choro e volto a chorar, sozinha, para que as meninas não vejam, para que ninguém perceba. Para descomprimir e abafar esta vontade de abrir a boca e deitar tudo a perder. Arrasada. Devastada. Exausta. Asfixiada.

 

E eu não o quero perder.

publicado por na primeira pessoa do singular às 11:16

comentários:
Cara mamã,
Como eu entendo todas as palavras que escreveu. Os seus dilemas são por mim partilhados. O meu marido é compreensivo, mas assumiu que a "pastilha" é para mim! E o cansaço vence-nos muitas vezes. Que consiga vencer o desânimo, é tudo o que posso desejar.
EM a 24 de Outubro de 2015 às 10:57

Há dias assim, e depois há dias em que tudo compensa.

Equilíbrio. É o que precisamos de ter. Tanto como AMOR.

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