Sobre mim e outras coisas, irreais, ou nem por isso...

15
Abr 15

O reforço à natalidade está na ordem do dia. Levam-se as mãos à cabeça, ai que os portugueses não estão a ter filhos, ai que fecham as escolas, ai que não há quem garanta o futuro da segurança social.

Eu sempre quis ter filhos, 3, 4...mas saíram-me caro.

A infertilidade sai cara, neste país, para além de ser uma coisa demorada. No SNS sai mais barato, mas multipliquem a demora por 10, e os impedimentos e restrições por 20...

Ser assistida por uma obstetra ao longo da gravidez, é caro. Ser assistida no SNS é mais barato, mas a coisa pode não ser fácil. Ser assistida num hospital público, por muito bem que nos tratem, por todas as consultas e exames que nos façam, é coisa que nunca poderei recomendar a mães de primeira viagem. A falta de uma figura de referência, de um médico assistente, ou enfermeira a quem se possa recorrer em caso de dúvidas ou ansiedades é algo que pode mesmo condicionar a vontade de repetir a experiência.

A logística é cara. Tudo bem, que isso até pode ser contornável. Boas aquisições para primeiro filho podem ser utilizadas para os seguintes, no caso de roupas, mobílias, equipamentos, carrinhos, cadeiras...os familiares e amigos também poderão emprestar ou trocar coisas. Mas as crianças precisam de espaço numa casa, num carro, e isso custa muito mais que mariquices de intercomunicadores, banheiras xpto, e tralha que nos tentam impingir como imprescindíveis ao primeiro filho. Ao segundo já não pega, obviamente...

Há o abono de família, pois há ( para quem o conseguir obter, e até acho justo que existam escalões conforme as possibilidades financeiras).Nem todas as mães podem/ conseguem/ amamentar. Mas a amamentação, mesmo que exclusiva, só dá para os primeiros meses. Depois há papas/ leites, as fraldas ( as reutilizáveis também custam dinheiro, e têm de ser lavadas, renovadas, levar os absorventes, não são uma alternativa inocente e barata, desenganem-se!). No primeiro ano, o abono até é capaz de cobrir estas coisas. Mas parece que depois do primeiro ano a criança deixa de comer, de usar fraldas...Também há os adeptos do " quem os fez que os crie"...mas isso leva-me a outra questão.

Para criar um filho, cada vez é mais inviável ser só um dos pais a trabalhar. Optar por este tipo de solução pode ser um rombo financeiro enorme, da qual uma família pode demorar a libertar-se ou mesmo ser arrastado por ele. Mas dois pais a trabalhar em simultâneo implica a existência de terceiros para ficarem com as crianças. Se houver avós, familiares que possam assumir a tarefa, excelente, a coisa é pacífica. Mas se não existe esse para-quedas, entram ao baile as amas, as creches, as empregadas, e tudo isto tem preço. E quando, mais tarde, não há acesso ao pré escolar público, a conta continua, muitas vezes acima de valores de propinas universitárias...Mais ainda, se ao encargo com descendentes se somar encargos com ascendentes. Muito mais ainda se qualquer dos casos anteriores envolver necessidades especiais

Esta semana, o Miguel veio comigo para o trabalho. Para o meu trabalho. Nesse dia específico a avó não podia ficar com ele durante umas horas. Para outras mães/pais, teria sido dia de faltar ao trabalho, ou dia de férias, ou dia de dor de cabeça para arranjar alguém com quem deixar o bebé. Se há empresas " baby-friendly", a maioria não o será, quer por politica laboral, quer, simplesmente, por o local e tipo de trabalho não ter condições para admitir a presença de um bebé ou criança pequena. E se eu tenho a sorte de ter um bebé pacífico...pois nem sempre é assim! E se o pai do Miguel pode gozar a sua licença de paternidade, bem, é um "sortudo" por trabalhar numa empresa que vê esse direito ( dever, na minha opinião) com bons olhos, e não coloca entraves ou retaliações. Algo que não aconteceria em nenhum dos meus empregos anteriores; para a mãe seria um castigo conseguir gozar a licença, para um pai seria impossível!
Depois existem as doenças, as consultas, as vacinas, as viroses, as noites mal dormidas...nada disso dispensa os pais de se apresentarem ao trabalho. Existem dias disponíveis para isso, mas ainda não percebi como se legisla sobre imponderáveis como quantos dias uma criança e os seus irmãos podem ficar doentes...e há também greves de professores, escolas fechadas, greves de transportes...e outras coisas que tais que tornam a vida de um pai/mãe num carrossel de emoções.

Há os livros escolares, mesmo que se reutilizem, há as vacinas que o estado não paga mas que quero dar aos meus filhos, há pés, pernas e braços a crescerem todos os dias. Há conhecimento e cultura que lhes devemos proporcionar e que também custa dinheiro. Há miminhos que gostaríamos de poder dar. Há dias de descanso que todos merecemos, mas que nem sempre podemos ter. Há um mundo que tem de ser explorado.

E depois há o "não tempo". O pouco que sobre depois de horas de trabalho, transportes, e mais trabalho em casa, compras básicas, actividades,tempo de tpcs, de estudo, de atenção, de cozinhados, roupas e arrumações. Pouco e muitas vezes cheio de más vontades e cansaço. Pouco tempo para os filhos, pouco tempo para os pais.

Eu tive de arranjar tempo para a nossa família.
Deixámos de conseguir arranjar espaço para ela numa casa maior.
Deixámos de ter uma série de coisas com que sonhávamos.

O espaço no coração é grande. O apoio familiar é impagável.

Apoios do estado? espero que aumentem...

mas se estivesse à espera deles, a nossa vida hoje seria uma pobreza!

publicado por na primeira pessoa do singular às 12:22

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